Na última semana de setembro de 2026, os Estados Unidos deram duas respostas opostas à mesma pergunta: quem manda na inteligência artificial? No dia 29 de setembro, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva que rebatizou a tecnologia. Para o governo federal americano, ela deixa de se chamar "Inteligência Artificial" (IA) e passa a se chamar "Super Intelligence" — "Superinteligência", ou "SI" na sigla oficial. No mesmo dia, seis das maiores empresas de tecnologia do mundo assinaram, ao lado dele, um acordo voluntário de segurança. No dia seguinte, 30 de setembro, a Califórnia respondeu: o governador Gavin Newsom assinou quatro leis e uma ordem executiva que caminham na direção contrária — mais regras, mais obrigações no trabalho e, sim, um recado direto ao novo nome.

É uma fotografia de um país rachado sobre o mesmo assunto, tirada em 24 horas. E vale entender cada peça, porque o que se decide lá costuma chegar aqui com um ou dois anos de atraso — e às vezes chega virado do avesso.

O decreto que troca o nome (e só o nome)

A ordem executiva se chama, sem ironia, "Inaugurating the Era of Super Intelligence". Ela determina que os órgãos do Poder Executivo usem os termos "Super Intelligence" e "SI" no lugar de "Artificial Intelligence" e "AI" em toda comunicação oficial, sites, relatórios e documentos de política, "na máxima extensão permitida por lei". Mais que isso: segundo o texto, o Executivo "não reconhecerá" os termos antigos em nenhum contexto aplicável.

Só que a troca é bem menos poderosa do que parece. A ordem não muda a lei — apenas o vocabulário do governo. E há um detalhe revelador: para definir o termo novo, o próprio decreto usa o conceito antigo. A seção 3 diz que "Super Intelligence" significa exatamente as tecnologias cobertas pela definição legal de inteligência artificial que está no código americano (15 U.S.C. 9401(3)). Ou seja, mudou a etiqueta, ficou o mesmo conteúdo.

Retrato oficial de Donald Trump, junho de 2026
Donald Trump assinou em 29/09/2026 a ordem executiva que renomeia a IA como "Super Intelligence" no governo federal americano. Foto: Casa Branca / Daniel Torok (domínio público).

O decreto também define um prazo: o principal conselheiro de ciência e tecnologia da Casa Branca tem 60 dias — até 28 de novembro — para propor uma nova definição legal de "Super Intelligence" e sugerir mudanças nas leis que citam "IA". Mas qualquer alteração de fato na legislação exige aprovação do Congresso. Até lá, como resume o Computerworld, os órgãos federais vão escrever "Super Intelligence" nos seus papéis enquanto as leis que eles aplicam continuam dizendo "Artificial Intelligence".

Por que trocar o nome? O próprio Trump já havia dito, num discurso na Assembleia Geral da ONU em 22 de setembro, que a palavra "artificial" fazia a tecnologia "soar falsa". A renomeação é, no fundo, uma peça de comunicação: um jeito de tentar melhorar a imagem pública de uma tecnologia que virou assunto de preocupação nacional.

O acordo que ninguém é obrigado a cumprir

Na mesma cerimônia, Trump e os líderes de seis empresas assinaram o "Joint Commitment on Frontier Responsibilities", divulgado como "Acordo da Casa Branca sobre Superinteligência". Assinaram Sundar Pichai (Google), Dario Amodei (Anthropic), Mark Zuckerberg (Meta), Greg Brockman (OpenAI), Elon Musk (xAI) e Jensen Huang (Nvidia). Chamam atenção os ausentes: Microsoft e Amazon não estão na lista — as duas estavam, no entanto, entre as sete empresas que assumiram compromissos voluntários com a Casa Branca em 2023.

O documento descreve quatro camadas de controle para quem treina e implanta modelos de fronteira: (1) monitoramento interno das capacidades e do alinhamento dos modelos, cobrindo riscos cibernéticos, biológicos e químicos; (2) uma equipe interna que verifica se esses controles funcionam; (3) um auditor ou avaliador externo independente; e (4) um comitê independente do conselho de administração para receber os relatórios e acompanhar as correções.

O problema é o que não está escrito. O acordo não cria penalidades, não define prazos, não estabelece padrões para os auditores e não obriga as empresas a publicar o que os auditores encontraram. Cada companhia escolhe seu próprio avaliador, nomeia seu próprio comitê e decide se divulga o resultado. Trump chamou o texto de "moralmente vinculante" e disse que era "quase como uma constituição" — mas uma constituição sem tribunal. Como resumiu a TechSpot, trata-se de autorregulação pura: as empresas é que "têm de se policiar", na frase do próprio presidente.

O contexto importa. O acordo chega depois de uma série de episódios de agentes de IA agindo fora do previsto — inclusive acessando sistemas de outras organizações — e de várias empresas anunciarem novas medidas de segurança e até a pausa no treinamento de modelos de fronteira. Em junho, o governo americano já havia criado um arranjo voluntário pelo qual desenvolvedores podem dar ao governo acesso aos seus modelos mais poderosos por até 30 dias antes do lançamento — também voluntário.

Governador da Califórnia Gavin Newsom em reunião com líderes da indústria de tecnologia
Newsom reunido com líderes da indústria de tecnologia em 2026. No dia seguinte ao acordo federal, a Califórnia respondeu com leis próprias. Foto: Wikimedia Commons.

A Califórnia respondeu em um dia

Enquanto o governo federal apostava no vocabulário e na boa vontade das empresas, a Califórnia apostava em papel assinado. Em 30 de setembro, Newsom assinou quatro leis apresentadas como as primeiras do tipo no país (SB 947, SB 951, AB 1331 e AB 1883):

  • Humano na decisão: empregadores ficam proibidos de se apoiar somente em sistemas de IA para decidir demissões ou medidas disciplinares — alguém de verdade precisa revisar.
  • Transparência na demissão: se uma demissão em massa, transferência ou corte for causado por um sistema de IA, o empregador terá de informar isso.
  • Privacidade no trabalho: proibição do uso de ferramentas de vigilância em banheiros do ambiente de trabalho.
  • Formação: instituições públicas de ensino superior da Califórnia terão de criar treinamento sobre IA para alunos, professores e servidores.

Além disso, o pacote veda que advogados entreguem totalmente a uma IA o trabalho jurídico central — como redigir peças ou dar parecer. E, na mesma data, Newsom assinou uma ordem executiva que, nas palavras do comunicado, "declara permanentemente que Inteligência Artificial se chama 'Inteligência Artificial' na Califórnia". É uma resposta com nome e endereço à renomeação federal.

A frase do governador não deixa dúvida: "Super intelligence claramente não está vindo da Casa Branca — por isso a Califórnia continua liderando. A IA deve ampliar oportunidades, não vir às custas dos trabalhadores e das famílias."

Gavin Newsom, governador da Califórnia, em 2026
Gavin Newsom, governador da Califórnia. Foto: UK Government / Shaun Curry (CC BY 4.0).

As duas Américas da IA

Colocadas lado a lado, as duas iniciativas são quase opostos espelhados:

Governo federal (EUA)Califórnia
Data29/09/202630/09/2026
Nome oficial"Super Intelligence" (SI)"Artificial Intelligence" (IA)
InstrumentoOrdem executiva + acordo voluntárioQuatro leis + ordem executiva
AlcanceVocabulário do governo + compromissos das empresasObrigações reais para empregadores
Quem puneNinguém — não há penalidadesLeis estaduais aplicáveis
FocoSegurança de modelos de fronteiraTrabalhador, transparência, privacidade

O ponto de fundo é um só: ninguém discorda mais que a IA precisa de algum tipo de controle. A briga é sobre onde ele fica. De um lado, o argumento de que regras rígidas enfraquecem as empresas americanas na corrida contra a China e que o setor sabe se policiar. Do outro, a aposta de que sem obrigação e sem quem fiscalize, compromisso voluntário é apenas uma promessa bonita — e que o lugar de decidir sobre o trabalho, a saúde e a privacidade das pessoas é uma lei, não um comunicado.

E o Brasil nessa história?

Enquanto isso, o Brasil está exatamente no meio desse debate — e não por acaso. O PL 2.338/2023, o Marco Legal da IA, já foi aprovado pelo Senado e tramita na Câmara dos Deputados com 37 propostas anexadas, segundo o Senado — que registrou o assunto justamente na semana do acordo americano. O texto brasileiro adota o modelo europeu de classificação por risco e prevê um sistema de fiscalização coordenado pela ANPD.

A lição da semana americana é valiosa para quem acompanha isso daqui. Primeiro: renomear não é regular. Segundo: um acordo voluntário pode ser um bom começo, mas não substitui a pergunta incômoda — quem verifica, e o que acontece com quem não cumpre? Terceiro, e mais prático: quando a regra chega, quem já tem política interna, registro do que automatizou e clareza sobre onde a IA decide e onde o humano decide chega pronto. Quem espera o susto chega correndo.

Para as empresas brasileiras — inclusive as pequenas — a janela está aberta agora. Documentar processos, definir quem revisa decisões automatizadas e treinar equipe não é burocracia para "quando a lei sair": é o que separa uma empresa que usa IA de uma empresa que será pega de surpresa por ela. A diferença entre "Super Intelligence" e "Inteligência Artificial", no fim, é a mesma das últimas décadas de tecnologia: quem se prepara antes decide; quem se prepara depois só reclama.

Fontes